Um projeto do passado para definir o futuro

Objetivos:
1 – Fazer entender o racismo enquanto violação dos Direiros Humanos e enquanto obstáculo ao pleno gozo e realização dos Direitos Humanos para todas e todos;
2 – Apresentar, aprofundar e articular os direitos humanos e os direitos das crianças como saberes fundamentais para o desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania;
3 – Combater a invisibilidade do racismo estrutural na sociedade portuguesa de forma didática e fundamentada no espaço escolar;
4 – Compreender a produção e divulgação da História (oficial), as suas singularidades e os seus silenciássemos, visando estimular a consciência históricas e enriquecer o protagonismo infando-juvenil;
5 – Promover uma cultura de participação e o envolvimento da crianças e jovens na vida da escola;
6 – Exercitar valores humanos e morais fundados na fraternidade, na criatividade, na liberdade, no respeito, no pensamento crítico, na luta por direitos e na coexistência;
7 – Capacitar as crianças e jovens para a criação de projetos no âmbito da não-discriminação e contra o racismo e a intolerância (racial, social e religiosa).

No jornal Público, 29 de Novembro de 2019

Do anti-racismo à presença das artes na escola, dois exemplos de diferença

Numa escola do 1.º ciclo houve um mapa feito com as linhas de vida dos alunos, para mostrar como todos se cruzam. Noutra para mais crescidos houve quem descobrisse vozes que pareciam perdidas. Projectos constam do relatório do Conselho Nacional de Educação, que é divulgado nesta terça-feira.

“Uma forma de ofender, magoar, humilhar, rebaixar, exercer poder, prejudicar outras pessoas pela cor da pele.” Foram estas as respostas à pergunta “O que é o racismo?” a que chegaram 22 crianças do 4.º ano de escolaridade da Escola Básica do Castelo, no centro de Lisboa. A descodificação foi feita no final de seis sessões de um projecto que ali foi desenvolvido em 2018/2019 sob o tema Com a mala na mão contra a discriminação.

A experiência é relatada num artigo da autoria das professores Ariana Furtado e Cristina Roldão que integra o relatório Estado da Educação 2018, do Conselho Nacional de Educação, que será divulgado nesta terça-feira.

Nesta escola estudam alunos com ascendência e/ou nascimento em mais de catorze países. Entre os objectivos do projecto constavam estes: “Compreender a produção e divulgação da História (oficial), as suas singularidades e os seus silenciamentos”, “exercitar valores humanos e morais fundados na fraternidade, na criatividade, na liberdade, no respeito (…)”; ou “capacitar as crianças e jovens para a criação de projectos no âmbito da não discriminação e contra o racismo e a intolerância”.

No final os alunos tinham mais respostas para apresentar. Por exemplo sobre “O que fazer para acabar com o racismo?” “Estamos a preparar uma manifestação, cartazes, postais, panfletos de luta contra o racismo; queremos que outras escolas, outros alunos, tenham este projecto nas salas de aula para compreenderem muitas coisas.” Informaram também que usaram “um mapa” para apresentar as suas “linhas de vida e perceber como os povos estão todos ligados como seres humanos”.

Antes da descrição deste projecto em concreto, as autoras recordam uma das características marcantes do insucesso escolar: o de ser também ditado pela cor da pele. É o que mostra o facto de entre as crianças oriundas ou descendentes de imigrantes dos Países Oficias de Língua Portuguesa a taxa de retenção ser pelo menos o dobro das que têm nacionalidade portuguesa. Para as autoras, o projecto desenvolvido no passado ano lectivo é um exemplo de estratégias que devem ser desenvolvidas nas escolas para se promover uma “educação anti-racista”. Chamam também a atenção, entre outros factores, para a “a necessidade de melhoramento da política de apoio não só na aprendizagem do português para alunos que têm outra língua materna, mas também a necessidade de avançar para estratégias bilingues em que as línguas maternas das minorias étnico-raciais possam ser reconhecidas, valorizadas e desenvolvidas nas escolas”.

De um grupo de professores da Escola Secundária Camões, em Lisboa, onde se inclui o seu director João Jaime, fica outro testemunho no Estado da Educação 2018, mais perene no tempo do que o anterior e que tem na base a aposta nas artes, dentro e fora das salas de aula, que tem sido uma das marcas da última década deste liceu centenário.

É assim que música, teatro, poesia, cinema, exposições têm feito parte do quotidiano de alunos e professores. Por uma razão simples: “Uma sociedade só de conhecimentos sem cultura é, definitivamente, uma sociedade que compromete o seu futuro e, por inerência, o de todos nós.”

E não faltam antigos alunos a corroborar este desafio. Apenas dois exemplos: “Foi no Camões que conheci os grandes autores da Literatura e lhes dei corpo e voz, tendo tido assim a feliz hipótese de encontrar o que quero fazer para sempre”; “encontrei no Camões a oportunidade de me perder e encontrar inúmeras vezes através da expressão artística, e esta ajudou-me a encontrar uma voz perdida em criança. E quão feliz estou de ter reencontrado a criança em mim!”

Apenas mais uma nota: até hoje, o Camões tem conseguido manter diversidade na sua oferta formativa, desde cursos para o prosseguimento de estudos, como cursos profissionais ou ensino para adultos em horário pós-laboral, entre outras ofertas. Os autores do texto sublinham a propósito que esta diversidade abre “portas aos mais diferentes tipos de alunos”.